quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

CaPTalismo inovador


CaPTalismo inovador


Como o capitalismo, o PT não pára de evoluir. Numa mesma semana, o Partido dos Trabalhadores privatizou grandes aeroportos e combateu greve abusiva de funcionários públicos. Quem precisa de direita com essa esquerda no poder?
Essa flexibilidade do PT é também a flexibilidade do capitalismo, o que o torna inescapável.
A China é um caso ainda mais emblemático. Lá governa uma ditadura comunista que entregou sorrindo a massa operária chinesa à bruta exploração do capitalismo global em fábricas que tratam os trabalhadores como bichos de carga.
É como disse a revista "Economist" em seu recente dossiê sobre a ascensão do capitalismo de Estado: a disputa no século 21 não será entre capitalismo e socialismo, mas entre diferentes formas de capitalismo.
Enquanto as economias liberais do hemisfério Norte ainda se recuperam da crise iniciada na década passada, países como China, Brasil, Índia, Rússia e África do Sul se desenvolvem apoiados em fortes e diferentes ações estatais.
Para a "Economist", o Brasil é "o mais ambíguo membro do campo do capitalismo de Estado: uma democracia que também adota muitas características do capitalismo anglo-saxão".
O capitalismo de Estado brasileiro, diz a revista liberal britânica, "inventou uma das mais inteligentes ferramentas do capitalismo de Estado", batizado por economistas de "Leviatã como investidor minoritário".
Nesse modelo, o Estado escolhe empresas "campeãs nacionais" para investir bilhões de reais subsidiados pelo BNDES em troca de uma participação minoritária em seu capital. Uma vez lá dentro, o "Leviatã" é capaz de influenciar os rumos da empresa, do seu setor e da economia como um todo.
Vimos o modelo em ação novamente na privatização aeroportuária desta semana, com a estatal Infraero mantendo 49% de participação nos aeroportos.
Mas a privatização dos aeroportos mostra algo maior que isso: mostra que o PT segue com o processo de liberalização da economia brasileira, chancelando, por mais que negue, a abertura iniciada pelos tucanos.
Foi um sinal importante para os mercados (global e nacional) de que, apesar do novo protecionismo e da nova retórica desenvolvimentista, estamos cada vez mais abertos para negócios. O capital estrangeiro entende e vem como nunca veio.
Esse hibridismo do modelo brasileiro coloca o país cada vez mais no centro, entre o novo mundo que emergiu e o velho mundo desenvolvido.
É uma posição única, valiosa, que precisa ser mais bem aproveitada na marca Brasil.

Fonte: Sérgio Malbergier é jornalista. Foi editor dos cadernos "Dinheiro" (2004-2010) e "Mundo" (2000-2004), correspondente em Londres (1994) e enviado especial da Folha a países como Iraque, Israel e Venezuela, entre outros. Dirigiu dois curta-metragens, "A Árvore" (1986) e "Carô no Inferno" (1987). Escreve para a Folha.com às quintas.